Critérios gerais para projetos

Depois de 30 anos de assistência à países subdesenvolvidos, temos que constatar que a situação nos países do sul, e especialmente no Brasil, tem piorado continuamente. O desenvolvimento introduzido pelos países industrializados tornou ricos mais ricos e pobres mais pobres. Este fato foi aceito, pelo menos passivamente, por parte des governos e organizações internacionais como ONU e o Banco Mundial. Isto aconteceu especialmente porque essa situação trouxe vantagens econômicas aos países industrializados. Até mesmo organizações de assistência privadas tiveram como centro suas atividades um tipo des desenvolvimento que objetivou uma crescente industrialização e orientação ao consumo. Ainda que não ativamente, no passado essas organizações não se posicionaram consequentemente contra essa forma de desenvolvimento.

É uma utopia acreditar que nós e todas as organizações não governamentais do mundo possamos mudar estruturas exploradoras de mercado e de poder com pequenos projetos de assistência. Nós precisamos de aliados aqui e nos países do terceiro mundo. A partir de instrumentos democráticos disponíveis, devemos procurar coalizões e parceiros, a fim de realizar mudanças. Para tanto, necessitamos de parceiros fortes também no Brasil. Com os nossos projetos, incentivamos especialmente a construção democrática, sob critérios ecológicos. Isto significa que nós não trabalharemos com as elites dirigentes do Brasil, enquanto seus objetivos permanecerem antidemocráticos e claramente direcionados na exploração de seu povo. Nós queremos e precisamos tomar partido, para sermos autênticos e termos capacidade de atuação.

Isto implica em não subsidiarmos projetos que objetivem a manutenção das circunstâncias atuais ou cujos membros e iniciadores não se posicionem claramente em favor de uma mudança democrática da realidade brasileira. Isto vale obviamente também para instituições da igreja que renunciem à causa dos pobres. Como parceiros, procuramos grupos, pessoas, instituições e organizações que incentivem o processo democrático no Brasil. Em outras palavras, procuramos como parceiros forças contrárias às atuais elites dominantes. Neste sentido, não queremos pessoalmente provocar ou acionar processos, mas sim cooperar com processos já iniciados e acompanhá-los. O objetivo e o caminho a ser seguido serão definidos pelos parceiros brasileiros e controlados pela comunidade dos favorecidos. De nossa parte, poderemos apenas cuidar para que esse controle social, por parte da comunidade de fato aconteça. O nosso engajamento não pode permitir que surjam novas estruturas de exploração em nome de interesses pessoais.

Os projetos subsidiados devem ajudar especialmente iniciativas comunitárias da própria população. Neste sentido vemos como premissa o subsídio á processos democráticos na área rural, para lutar contra a concentração de terras e também contra o êxodo rural. Isto implica em trabalhar com sindicatos e cooperativas formadas através de voto livre, com o Movimento dos Sem Terra, com a Comissão Pastoral da Terra, com associações de bairro, pescadores e índios. Será dada preferência à projetos que em seu objetivo democrático dediquem-se ao trabalho prático como alfabetização, escolarização, saúde e alimentação, lavoura e horticultura ecológica, criação artística, formação profissional, instruções para obtenção de crédito ou formação de grupos de produção coletiva. Projetos sociais devem ser subsidiados somente se encaixados nas iniciativas acima. No todo, vemos o completo desenvolvimento humano neste contexto como o objetiva a ser alcançado. Base do nosso engajamento é que, através dele, nenhuma iniciativa local da população, em seu caminho à libertação, seja bloqueada ou impedida. Não pode ser criado nenhum tipo de dependência, especialmente de técnicas ou produtos estrangeiros. Neste sentido "menos" significa muitas vezes "mais" e para subsídio financeiro permanece a seguinte fórmula: tanto quanto for absolutamente necessário, mas também tão pouco quanto possível. O interesse pelo trabalho decorre tanto da independência de nossos parceiros como do princípio de igualdade.

Nossas relações com iniciativas brasileiras têm de estar baseadas em autêntica, parceria e intenso diálogo. Somente uma certa participação financeira por parte dos próprios interessados pode assegurar a longo prazo a sobrevivência de uma iniciativa, mesmo sendo nosso engajamento, a princípio, direcionado a longo prazo. Na área cultural e artística vemos novos pontos de partida para um intercâmbio Brasil- Alemanha.

O nosso diálogo com os parceiros brasileiros deve contribuir para um melhor entendimento entre os povos do Brasil e da Alemanha. Os relatórios e as experiências de nossos parceiros brasileiros devem nos qualificar a representar seus interesses tanto na Alemanha como internacionalmente. Nosso objetivo é especialmente dar voz aos oprimidos no Brasil, ou na América Latina, e revelar à público toda a situação de injustiças. Fotografias atuais podem contribuir, por exemplo, para que alcancemos mudanças no plano internacional.

Nossa parceria também tem como objetivo incentivar a melhoria das relações dos nossos parceiros brasileiros entre si. Para isso queremos auxiliar tanto no plano econômico como nos das idéias. No plano das idéias nossa participação se limitará ao desejo de nossos parceiros brasileiros.

Nós queremos cultivar o que há de comum entre nós, mas também descobrir e entender as diferenças. Nosso intuito é o de incentivar o diálogo entre as culturas. Em nossas reflexões incluímos uma visão histórica da forma como é expressa por Al Imfeld:

"O que interessa não é a proteção ou o esquecimento, mas sim a história, que leva à compreensão e à continuidade. O historiador francês Lucien Febvre diz "O interesse pela história é sempre o interesse pelo presente". Este é o motivo pelo qual a história é uma necessidade presente. Isto quer dizer que a história contribui nos processos de reorganização e reestruturação de uma sociedade. É lamentável que a política de assistência à países subdesenvolvidos não tenha descoberto a história como fator dinâmico, ou quando muito a explora como lamentação e comprovação de culpa. Quem quer algo novo deverá ter a história e a visão como molas mestras. Até mesmo na freqüentemente desgastada formação de identidade, a história - própria e alheia, pequena e grande - é a base. Ela traz orgulho, proporciona continuidade, suprime a invasão descabida de elementos estrangeiros, não simplesmente destruí, mas dá luz a modelos e faz nascer idéias contextualizadas. Uma nova ordem não vem de fora para dentro, mas nasce do próprio passado, visto sob uma nova luz. A teologia da libertação compreendeu isto. Por isso, ela trabalha tão intensamente com a história, e surpreende, desta forma, nossos teólogos e também os especialistas em questões de desenvolvimento."